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História de Eliane Rodrigues - AMUNAM

Duas histórias que se vinculam:

Eliane Rodrigues de Andrade Ferreira - Feminista de Luta e Coragem E a Associação das Mulheres de Nazaré da Mata/PE

Nasceu e foi criada na zona rural de Nazaré da Mata. Ficando órfã de pai aos 7 anos de idade, na condição de irmã mais velha, assumiu com sua mãe, a criação e educação de 3 irmãs e um irmão no Engenho Pasta. Foi Alfabetizada no Colégio Irmã Guerra e no ano seguinte passou a estudar no Colégio Santa Cristina onde ficou até concluir o Ensino Técnico em Contabilidade, através de uma bolsa de estudos do MEC - Ministério da Educação e Cultura.



Oportunidade que lhe garantiu um ensino de qualidade e uma educação humanística, porém por outro lado, precisava se empenhar ao máximo para tirar boas nota a fim de garantir sua permanência na escola enquanto bolsista. Nos horários alternados à escola buscou fortalecer algumas habilidades manuais e artesanais: confeitaria, crochê, pintura em tecido, culinária, datilografia e manicure. Atividades que garantiram algum dinheiro para ajudar a se manter..

Aos 14 (catorze) anos, começou a fazer parte do quadro de bolsista do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nazaré da Mata. Ao completar 16 (dezesseis), passou para o quadro de funcionários, com a incumbência de administrar o Posto Médico e coordenar uma equipe de 7 (sete) pessoas, composta por médicos, dentistas, técnicos e auxiliares. Após 8 (oito) anos, passou a assessora a Diretoria do Sindicato em suas atividades de campo, inclusive era o auge dos movimentos grevistas. 

Em 1986, conhecedora da realidade das mulheres rurais, as quais ficavam limitadas a ajudar os maridos na roça, aos serviços domésticos e a criar filhos e netos. O preconceito, a discriminação e as relações de poder do homem sobre a mulher não lhes permitiam sonhar com uma vida melhor, muito menos assumir algum cargo de direção na entidade. 

Percebendo que poderia contribuir para mudar aquela situação, fortalecida com sonhos e desejos de disseminar seu aprendizado, paralelamente às reuniões dos homens nas comunidades, começou em baixo de algumas árvores, a conversar com as mulheres a fim de criar alguma estratégia para que elas pudessem também ter vez e voz.

Após 2 (dois) anos desses “pequenos encontros” e percebendo que cada vez mais os diretores tentavam fazer com que o seu trabalho não fosse adiante, juntamente com mais 18 (dezoito) mulheres decidiram fundar a Associação das Mulheres Rurais de Nazaré da Mata, Tracunhaém e Buenos Aires. 

Porém no início da década de 90, com uma nova diretoria que também aceitava mulheres no Sindicato, decidiram demiti-la após 18 (dezoito) anos de trabalho. Talvez na idéia de intimidá-la, ofuscando a luta com as mulheres trabalhadoras rurais e desocupar a pequena sala que foi disponibilizada no Sindicato.

Só não contavam que sua demissão seria a solução. Com sua força, coragem e determinação, juntaram os poucos pertences que tinha, fizeram uma nova reunião com as mulheres ficando a decisão que a saída era alugar um espaço. Daí surge do invisível, questionamentos... Dentre eles: como e com que dinheiro alugar um espaço? 

As respostas somavam aos sonhos e desejos para um futuro desafiador, mas, promissor. Estava para alugar uma casa que havia sido desocupada em frente à Sede do Sindicato. Eliane com sua visão holítica levantou-se no meio as mulheres e tomou uma decisão: com o dinheiro que recebera dos 4 (quatro) meses do seguro-desemprego, assumiria o aluguel daquela casa, na condição de durante o período buscariam alguma alternativa para darem continuidade ao pagamento.

Primeiro passo pediu ao seu marido, homem de credibilidade e reconhecimento da sociedade para ser seu fiador. Resultado: alugaram a casa, que ao passar do tempo tornou-se referência para as mulheres e seus familiares a casa rosada como é conhecida com seu carinho - AMUNAM; 

Ao passar dos anos com suas conquistas e vitórias, começam a luta para o Segundo Passo: Mudar os objetivos do Estatuto Institucional para atender todas as mulheres, portanto eliminando as palavras “Rurais”; 

A partir daí, com o Estatuto reformulado, ampliaram o atendimento para todas as mulheres e começara a mobilização de mulheres com habilidades artesanais para serem multiplicadoras: corte-costura, artesanato, culinária, etc., para voluntariamente oferecer algum curso, pelos quais se cobrava uma pequena taxa para poder pagar as despesas de água, luz e material de limpeza, já que o telefone conseguiu com a operadora fazer uma extensão do seu residencial. 

Terceiro passo, abraçar com responsabilidade e compromisso suas conquistas, o próximo passo seria dar visibilidade, credibilidade e sustentabilidade das ações e luta pela equidade de gênero no município de Nazaré da Mata e municípios circunvizinhos da região. Começa a batalha de mobilização na captação de recursos, tentando colocar mesmo de forma tímida, mas objetiva e concreta as conquistas e metas visíveis, de mudanças de comportamentos e atitudes de sua equipe e mulheres atendidas. Através de “Propostas em Projetos Sociais” visando à mobilização de diferentes fontes de recursos, desde com as próprias associadas, comerciantes, Governo do Estado até Organismos Internacionais.

Sua primeira conquista como Coordenadora de uma entidade feminista: Assinaturas de Contratos com a Cebemo/Bilance/Holanda, hoje Cordaid. Parceria que durou cerca de 15 (quinze) anos. Da fundação da AMUNAM até os dias atuais, foram colhidos frutos, perdidos outros, porém nunca desistiu da luta e o propósito junto às mulheres que acreditam e confiam na sua competência política de mulher guerreira e vencedora de grandes batalhas.
O que fala Eliane Rodrigues:

Considero meu trabalho compromissado, ousado, inovador e respeitado. Meu compromisso com causas sociais, mas especificamente da mulher em suas várias faixas etárias, vem desde minha adolescência sem nunca haver me afastado, por mais difícil que fosse o problema; Todos os projetos que busquei implantar o fiz com a cara e a coragem, baseado nos interesses e necessidades do público beneficiário, porém contando com a credibilidade, respeito e legitimação dos colaboradores, parceiros e público atendido; Sempre trabalhei a educação para o desenvolvimento humano e sustentável, considerando a história de vida e o contexto sócio-econômico, isto vem facilitando o aumento do diálogo, afetividade na família, aumento do rendimento escolar, descoberta/resgate da auto-estima, da cultura, prevenção da gravidez precoce e indesejada. 

Entendo a comunicação como direito humano, que deve facilitar a participação nos espaços de discussão e decisão de políticas públicas, levando em consideração às relações de gênero, raça, etnia, respeitando o meio ambiente.
Paixão pelo o que faz, acredita que a transformação social depende da transformação humana. Sempre disponível a criar o novo e colocá-lo em prática, nesta concepção reconhece que se faça a sustentabilidade. 

Para Eliane, idéia e visão de futuro devem caminhar conjuntamente. Porém, reconhece que não consegue realizá-las sozinhas, fazendo-se necessário o envolvimento de várias pessoas e segmentos da sociedade, principalmente da população atendida. 

Como Coordenadora Executiva da AMUNAM, vem ao longo de sua Gestão, fazendo a diferença, agregando valores de forma participativa e coletiva. Junto a sua equipe, pessoas simples, que recebem a primeira oportunidade de emprego, idealizadores, sonhadores, formadores de opiniões, são mulheres e homens selecionados pelos seus desejos, persistência de ver um mundo melhor e, sobretudo que acreditam que para mudar o mundo se faz necessário mudar o indivíduo primeiro. Vêm transformando problemas sociais e necessidades das comunidades através de projetos com linhas socioeducativas, transformação social, resgatando crianças, adolescentes, jovens mulheres da situação vulnerabilidade de risco pessoal e social, proporcionando-as reconhecimentos de suas habilidades e competências, inclusão e melhoria na qualidade pelas suas ações.

Eliane foi ainda mais longe, contrariando o que comumente ocorre, não foi uma emissora de rádio que deu origem a um programa, mas o “Programa” que deu origem a radio nasce do Programa Espaço da Mulher – Coordenado, produzido e apresentado por Eliane Rodrigues, a Rádio Comunitária Alternativa FM. Projeto este “Menina dos olhos de Eliane”, a rádio desenvolve um projeto voltado ao desenvolvimento local ao utilizar energias endógenas na tentativa de melhorias em Nazaré da Mata. Além de produzir programas sociais, contribuindo para a construção do capital humano e do capital social de mulheres e homens jovens com menos de 29 anos de idade, envolvidos nos trabalhos da rádio, que veicula programação para mais de 15 mil ouvintes dia.

Nazaré da Mata é considerada “Capital do Maracatu” e Eliane Rodrigues mais uma vez, frente aos desafios, reuniu-se com sua equipe e lança uma reflexão: “Por que, não, formamos um maracatu rural, na categoria – Baque Solto 100% Feminino!!!” e no dia 8 de março de 2004 foi fundado o Maracatu Coração Nazareno da AMUNAM. Levando a delicadeza, a leveza, feminilidade e a fortaleza da mulher a um ambiente formado prioritariamente por homens.

Com esta visão de Gestora Participativa tem alcançado resultados de transformação nos aspectos socioeconômicos, culturais, ambientais promovendo a cidadania e o desenvolvimento local do público beneficiário, seus familiares e comunidades. Fazendo a diferença, agregando valores de forma participativa e coletiva, vem transformando problemas sociais e necessidades das comunidades através de projetos com linhas socioeducativas, transformação social, resgatando crianças, adolescentes e mulheres da situação vulnerabilidade de risco social e pessoal, proporcionando-as reconhecimentos de suas habilidades e competências, inclusão e melhoria na qualidade vida pelas suas ações.
Idealista de uma metodologia exitosa no processo de desenvolvimento dos projetos entende que uma metodologia de trabalho social, deve ser voltada para diferentes públicos: beneficiário, equipe executora, parceiros e colaboradores. Baseada na Pedagogia Social esta ferramenta de trabalho busca incentivar o desenvolvimento integral do ser humano e a consciência de participação dentro da sociedade, a partir dos direitos e deveres. Levando a situarem-se como agentes de transformação da própria vida, da comunidade e da sociedade. Trabalhando através de reflexões as diferenças e desigualdades sociais trazendo como um viés em gênero, raça, etnia, cultura e meio ambiente. 

Incentiva como métodos, utilização do lúdico, do fazer acontecer construindo juntas, a partir dos pilares aprender a ser, a conviver, a conhecer e a fazer são fatores fundamentais. Bem como compartilhar e descentralizar a gestão independente da função, para que todos se sintam parte do processo, porém os papéis devem ser definidos, para que não haja atropelos; as avaliações devem ser sistemáticas, a partir das oficinas diárias até o resultado parcial ou final. Desta forma acredita numa esfera de trabalhos mútuos e nivelados em saberes, valores e princípios que cada um traz de si na roda e em roda.

O monitoramento dos resultados e avaliação do processo deve ser realizado no cotidiano, diante sua experiência e trajetória de vida acredita que os resultados diretos são efetivamente produzidos no decorrer da proposta projeto, juntamente com as metas e atividades planejadas. Os resultados representam benefícios, serviços gerados, ou seja, o produto do projeto: pessoas sensibilizadas, capacitadas; Mudanças de comportamentos; Planos de atividades elaborados e executados; Materiais didático/pedagógico elaborados; Publicações; Prêmios reconhecidos; Reivindicações acompanhadas pela Mídia e Cobertura de ações de projetos executados.

Com sua luta e coragem, vem garantindo respeito e reconhecimento do trabalho através dos vários títulos e Prêmios que a instituição conquistou: utilidade pública municipal, estadual e federal; certificado de entidade beneficente, prêmio Telemar de Inclusão Digital, Itaú/UNICEF 2003/2005/2007. 

Outros fatores são preponderantes: No município não existir iniciativa igual; o trabalho ser fonte inspiradora na região para a formação de outros grupos de mulheres, os quais mesmo timidamente estão desenvolvendo alguma ação voltada para mulheres; os parceiros locais, voluntários, registros, títulos públicos, quantitativo de prêmios e seleções de projetos.
Com sua experiência e competência na área social, levanta a bandeira das lutas feministas, e ao longo de sua caminhada muitas arvores foram plantadas, muitos frutos foram colhidos e muitas sementes estão para serem germinadas, porque a AMUNAM:

• Trabalha a mulher a partir dos 8 anos de idade com projetos específicos por faixa etária;
• Trabalha a prevenção e o enfrentamento da violência doméstica e sexual junto às mulheres, independente da faixa etária;
• Busca levar a participação das mulheres nos diversos espaços de discussão e decisão das políticas públicas, inclusive acompanhando as sessões da Câmara de Vereadores;
• Concebe a comunicação como direitos humanos;
• A inclusão digital como direito de todos;
• Vislumbra o resgate e valorização da cultura através das danças culturais (coco de roda, ciranda, maracatu rural, caboclinho, frevo e capoeira);
• Apesar das dificuldades consegue envolver o público atendido, atores sociais, família, escolas, poder público, voluntários, sociedade, parceiros locais, regionais, nacionais, internacionais.
• Não agride o meio ambiente, sendo esta temática um viés em todas as ações, inclusive no ano de 2005 recebemos do Governo do Estado através da CPRH (Companhia Pernambucana de Recursos Hídricos e Meio Ambiente) o Prêmio Vasconcelos Sobrinho na categoria participação comunitária.

Trabalha, por uma única idéia que todos os projetos desenvolvidos tenham características reaplicáveis, inclusive alguns já foram reaplicados em outros municípios da região, além de Nazaré da Mata: Carpina, Tracunhaém, Aliança, Itaquitinga, Vicência, Buenos Aires, Timbaúba, Lagoa do Carro, Lagoa de Itaenga e Paudalho, através dos professores da rede pública, conselheiros tutelares, conselheiros defesa dos direitos da criança e adolescente, agentes comunitários de saúde, lideres comunitários e de igrejas, através do Projeto Deixando Marcas, considerado pelo Prêmio Itaú UNICEF 2005, MENÇÃO HONROSA, entre as cinco experiências de grande relevância no Brasil.

Em 2009 e 2010, Eliane Rodrigues/AMUNAM, sai do seu habitat – Zona canavieira da Mata Norte de Pernambuco e vai desenvolver na região Metroplitana – Recife, Olinda e Jaboatão em parceria com o Governo do Estado e a Secretaria da Mulher de Pernambuco, “o Projeto Mulheres da Paz - Pioneiro no Estado – Beneficiando 1.100 mulheres de 11 bairros da região metropolitana do Recife (690), Olinda (270) e Jaboatão (140).

A partir do dia 01 de setembro de 2011, foi convidada e assumiu a Diretoria Geral de Enfrentamento a Violência de Gênero do Estado de Pernambuco. Diretoria onde coordena duas frentes de Trabalho: A prevenção da violência contra mulheres, com as campanhas educativas nos 184 municípios do estado e enfrentamento de violência com as casas abrigos, localizadas nas várias regiões do estado. Tendo sob sua responsabilidade, vários profissionais, composta por uma equipe multidisciplinar.

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